Este artigo aborda os aspectos conceituais relacionados com Transdisciplinaridade, Dimensão Espiritual e Educação Superior, dividindo-se em quatro partes.
Na primeira parte expõe-se o significado da Transdisciplinaridade, com base na Carta de Arrábida, frisando que ela não existe se o seu componente espiritual não é abordado; nesse caso, será, no máximo, interdisciplinaridade.
A segunda parte aborda o significado da Dimensão Espiritual, com base em estudos científicos bem recentes.
A terceira parte discute a Espiritualidade e sua relação com a Educação Superior, levantando uma série de informações que mostram como esse assunto é abordado cada vez com maior intensidade por muitas das mais avançadas Universidades do mundo.
A quarta parte, refere-se aos pressupostos fundamentais inerentes à pesquisa do tema, que será desenvolvido num próximo artigo.
Finalmente, a abordagem geral do artigo é consolidada através de quatro conclusões.
1.1. Conceitos básicos
A Transdisciplinaridade, segundo Nicolescu (1970), é uma nova abordagem científica, cultural, espiritual e social.
Como o prefixo trans o indica, ela diz respeito ao que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas, e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para a qual um dos imperativos é a unidade de conhecimento.
O mundo acadêmico, o mundo das ciências, é o mundo das disciplinas autônomas isoladas. Mas devido a seu vertiginoso avanço e à proliferação de tecnologias, a complexificação dos problemas está levando à aproximação e a reconstrução da associação entre as disciplinas em diferentes graus, do mais simples (multidisciplinaridade) até o mais completo (transdisciplinaridade). Esta evolução deveria acercar as Universidades, que hoje são uma soma de Faculdades, a seu verdadeiro sentido universal, abrangente, o de "universitas".
Piaget (1970), considerou que a transdisciplinaridade era um sonho. Mas esse sonho se está transformando em realidade, apenas por necessidade. A complexidade crescente acerca de nossa compreensão do Universo, exige uma integração de conhecimentos, através da transdisciplinaridade, pois, as disciplinas isoladas não dão conta do recado.
Chaves (1998) num estudo sobre a transdisciplinaridade, aplicada a saúde, propõe oito dimensões daquela:
- Ecológica, ética, epidemiológica, estratégica;
- Político-econômica, educacional, psico-sócio-cultural;
- Transcendental.
Em particular, a dimensão transcendental, em que o profano e o sagrado convivem, e que foi tão bem estudado por Elíade (1973), completando-se e fazendo parte de nossa estrutura arquetípica, é a dimensão da transdisciplinaridade que será o objeto central deste artigo.
1.2. A Carta de Arrábida
Esta carta é o quilômetro zero da Transdisciplinaridade e foi adotada no primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, no Convento de Arrábida, Portugal, em novembro de 1994. Ela conta com um preâmbulo composto por 7 considerandos e 15 artigos, sendo os mais destacados os seguintes:
Artigo 2: O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por lógicas diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível, regido por uma única lógica, não se situa no campo da transdisciplinaridade.
Artigo 5: A visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas, por seu diálogo e sua reconciliação, não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual.
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